É insuportável estar detido pelo próprio corpo. Nunca entendi como as pessoas conseguem tirar proveito espiritual ou intelectual de alguma doença. Para mim não passa de um insulto quando ela me acomete; e não posso imaginar, senão no caso mais extremo, um grande uso de tais sofrimentos, quando eles se tornaram imensuráveis e viraram um martírio. Nessa situação, quase não há outra saída a não ser arrojar sobre a alma essa vastidão de dor, que não pode mais ser acomodada no corpo. Aí, a dor, seja qual for sua origem, logo se torna força pura, tal como na obra de arte o difícil, até mesmo o feio, revela-se apenas como robustez, resolução e plenitude de vida, na pura existência que eles agora assumem. Mas sofrer corporalmente em pequena escala, aqui e ali, não tem sentido; é algo que me preocupa tanto quanto uma distração...
Rainer Maria Rilke in Cartas do poeta sobre a vida, seleção de Ulrich Baer, Martins, 2007, pág. 151
Nenhum comentário:
Postar um comentário