sexta-feira, 7 de abril de 2017

Os afogados

Estranha irmandade, essa, 
Entre o frio cobertor,
Com que água tão imensa
Cobre o corpo, e seu calor
Já extinto há várias horas
Ou deixado assim à toa
(salpicado pelas margens
em que esbarra em sua viagem).

É estranho esse atavio
Que no corpo vem compor,
Se mexendo tão macio,
Cada vez com mais torpor,
E fazendo em seu trajeto
- Fundo à tona, não direto -,
Movimento especular:
Morre e nasce ao se afogar.

Se é criança, o que se afoga,
Talvez venha com meneios:
De onde estava, foi-se embora
- De esconder-se, sempre há meio -,
E aparece acima, adiante,
Que pra si não foi bastante
Pouca idade que então tinha
(saber como, o fim da linha?)

A mocinha morta virgem
É Ismália a que o véu
Dessa água deu seu hímen,
Esperando alçar-se ao céu
- Não sabia (já supõe)
Que essa imagem, então, que foi
Desenhada em correnteza,
Noiva é que não se despreza -.

E não falo de outros casos
Que acontecem tão frequente
- Homens, velhos, ou soldados -
Que no fim, a toda gente
(não importa de onde venha:
pode ser que for que seja)
Vem tecer igual crochê
(movimento em cruz-e-ponto)
Amarrando o rio, em quê
É sua linha o próprio corpo.


Alckmar Luiz dos Santos in Rios Imprestáveis, Lemos Editorial, 2001, págs. 29/30

Vencedor do 1º Premio Redescoberta da Literatura Brasileira - 2000

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