quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vivendo entre dois mundos....

Sentia-se também ele o mesmo: ansioso, impaciente, temeroso de não conseguir sustentar a conversação, de ser tido como intruso, como alguém que não deveria estar ali e que poderia ser descoberto em sua fraude, para, censurado, ser colocado porta afora. Recordou-se então de que aquela não era uma noite qualquer; era uma sexta-feira, noite de Schabat, o dia sagrado de descanso para os judeus como ele. Um calafrio correu-lhe a alma e assinalou um dos sentidos possíveis para aquela sua vivência da estranheza. Ele era mesmo diferente daqueles senhores de alta estirpe. Vivia, sem que pudessem suspeitar, entre dois mundos. Uma sombra tomou o coração do médico. Mas os pensamentos melancólicos foram cortados pela voz amistosa do anfitrião.

Noemi Moritz Kon in A viagem, da literatura à psicanálise, Companhia das Letras, 2003, pág.127


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