terça-feira, 10 de janeiro de 2023

A vida e o romancista

O romancista - tal é seu mérito e seu risco - está tremendamente exposto à vida. Outros artistas se recolhem, pelo menos em parte; fecham-se sozinhos por semanas a fio com uma travessa de maçãs e uma caixa de tintas, ou com um rolo de pautas musicais e um piano. Quando saem, é para esquecer e se distrair. Mas o romancista nunca esquece e raramente se distrai. Enche o copo e acende o cigarro, provavelmente goza de todos os prazeres da conversa e da mesa, mas sempre com a sensação de que está sendo estimulado e manipulado pelo tema de sua arte. Sabores, sons, movimentos, algumas palavras aqui, um gesto ali, um homem entrando, uma mulher saindo, mesmo o automóvel que passa na rua ou o mendigo que se arrasta pela calçada, e todos os vermelhos, azuis, luzes e sombras da cena pedem sua atenção e despertam sua curiosidade. É-lhe impossível deixar de receber impressões, assim como é impossível a um peixe no oceano deixar de ter a água passando pelas guelras.

Virginia Woolf in A arte do romance, L&PM Pocket, pág.85

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