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Eis aí a história de um selvagem capturado em algum ponto da costa do Labrador, levado à Inglaterra e exibido como animal selvagem. No ano seguinte, levam-no de volta e colocam a bordo uma mulher selvagem para lhe fazer companhia. Quando se veem, ambos enrubescem; enrubescem muito; o marinheiro nota, mas não sabe a razão. E mais tarde os dois selvagens montam casa juntos a bordo do navio, ela atendendo às necessidades dele, ele cuidando dela nas doenças, mas vivendo, como notam os marinheiros, em completa castidade. A luz errante lançada por esses registros, ao recair um instante naquelas faces ruborizadas trezentos anos atrás, entre a neve, cria aquela noção de comunicação que somente a literatura nos proporciona. Parecemos entender por que eles enrubesceram; os elisabetanos percebiam o fato, mas levou mais de trezentos anos para o interpretássemos.
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