segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Poética"



1
então é isso
quando achamos que vivemos estranhas experiências
a vida como um filme passando
ou faíscas saltando de um núcleo
não propriamente a experiência amorosa
porém aquilo que a precede
e que é ar
concretude carregada de tudo:
a cidade refluindo para sua hora noturna e todos indo para casa ou então marcando encontros improváveis e absurdos, burburinho da multidão circulando pelo centro e pelos bairros enquanto as lojas fecham mas ainda estão iluminadas, os loucos discursando pelas esquinas, a umidade da chuva que ainda não passou, até mesmo a lembrança da noite anterior no quarto revolvendo-nos em carícias e mais nosso encontro na morna escuridão de um bar ― hora confessional, expondo as sucessivas camadas do que tem a ver ― onde a proximidade dos corpos confunde tudo, palavra e beijo, gesto e carícia
TUDO GRAVADO NO AR
e não o fazemos por vontade própria
mas por atavismo


2
a sensação de estar aí mesmo
harmonia não necessariamente cósmica
plenitude muito pouco mística
porém simples proximidade
da aberrante experiência de viver
algo como o calor
sentido ao lado de uma forja
(talvez devesse viajar, ou melhor, ser levado pela viagem,
carregar tudo junto, deixar-se conduzir consigo mesmo)
ao penetrar no opalino aquário
(isso tem a ver com estarmos juntos)
e sentir o mundo na temperatura do corpo
enquanto lá fora (longe, muito longe) tudo é outra coisa
então
o poema é despreocupação


Cláudio Willer in Digestivo Cultural


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4 comentários:

Anônimo disse...

Não sei como está aí em Sampa, mas por aqui no Rio está um “opalino aquário”.

Gostei!

H.

Metamorfose Ambulante disse...

Agora aqui está "uma concretude carregada de tudo"

FRID

Anônimo disse...

Olá Frid!
gosto da sua ideia de "segunda-feira é dia de poesia"!
Retribuo a sua gentileza!
Abraços,
F.

Metamorfose Ambulante disse...

Poesia com poesia se paga!! Mas com Drummond eu fico lhe devendo!! Pago na outra semana.

Vou colocar Drummond no meu blog.

Um grande abraço

FRID