A quem não ouve, nesta sexta, o mar
pela manhã, a quem dentro de alguma
casa, escritório, fábrica ou mulher,
ou rua, ou mina, ou seco calabouço:
a este eu ajudo e sem falar nem ver
chego e escancaro a porta da clausura
e um sem-fim vago se ouve na insistência,
um longo trovão roto se encadeia
ao peso do planeta e da espuma,
roncos surgem os rios do oceano,
vibra veloz em sua roseira a estrela
e o mar palpita, morre e continua.
Assim pelo destino conduzido
devo sem trégua ouvir e conversar
o lamento marinho na consciência,
devo sentir o golpe da água dura
e recolhê-lo numa taça eterna
tão pura que onde esteja o encarcerado,
onde sofra o castigo do outono
eu esteja presente com uma onda perdida,
e através das janelas eu circule
e quando me escutar levante o olhar
dizendo: como chegarei ao mar?
E eu transmitirei sem dizer nada,
os ecos estrelados de uma onda,
um quebranto de espuma e de areais,
um sussurro de sal que se retira,
o grito gris do pássaro da costa.
E assim, por mim, a liberdade e o mar
responderão ao coração escuro.
(1962)
Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002
2 comentários:
Lindo
Margarida
Menino!
Não é necessário acrescentar mais nada, bateu fundo.
Beijos no coração.
Marli
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