quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A minhas obrigações



Cumprindo com meu ofício
pedra com pedra, pluma a pluma,
passa o inverno e deixa
lugares abandonados,
habitações mortas:
eu trabalho e trabalho,
devo substituir
tantos olvidos,
encher de pão as trevas,
fundar outra vez a esperança.
Para mim somente a poeira,
a chuva cruel da estação,
nada me reservo a não ser todo o espaço
e ali trabalhar, trabalhar,
manifestar a primavera.
A todos tenho que dar algo
cada semana e cada dia,
um presente de cor azul,
uma pétala fria do bosque,
e já de manhã estou vivo
enquanto outros afundam
no ócio, no amor,
eu estou limpando minha campana,
meu coração, minhas ferramentas.
Tenho orvalho para todos.

(1959)


Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

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