Querido Pai:
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Você tinha especial confiança na educação pela ironia, era ela a que melhor correspondia à sua superioridade sobre mim. Em você uma admoestação tinha comumente esta forma: "Será que você não pode fazer isto assim e assado? Será que é demais para você? Naturalmente para isso você não tem tempo, não é?", e coisas semelhantes. Nessa hora cada pergunta era acompanhada por um riso maldoso e uma cara feia. De certo modo a pessoa já estava punida antes mesmo de saber que tinha feito algo errado. Eram provocadoras também as repreensões em que se era tratado na terceira pessoa, ou seja, como alguém indigno até da interpelação malévola, na qual você se dirigia formalmente à minha mãe, mas na realidade a mim; assim, por exemplo: "Naturalmente não se pode exigir isso do senhor meu filho" e coisas do gênero. (A contrapartida foi que eu, por exemplo, não ousava e mais tarde nem mesmo cogitava de lhe fazer perguntas diretas quando minha mãe estava presente. Era muito menos arriscado para o filho perguntar por você à mãe sentada ao seu lado; então se indagava: "Como vai o meu pai?" e assim se evitavam surpresas.) Evidentemente havia casos em que se estava muito de acordo com a ironia mais acerba, quando ela dizia respeito a outra pessoa, por exemplo Elli (irmã mais velha de Kafka), com quem estive em más relações durante anos. Para mim era uma festa da maldade e do júbilo pela infelicidade alheia quando, em quase todas as refeições, se falava dela assim: "A ampla mocinha precisa ficar sentada a dez metros de distância da mesa", lance em que você, então, maldoso na sua cadeira, sem o menor vestígio de amabilidade ou de humor, mas sim na postura de um inimigo encarniçado, procurava imitar, com exagero, a maneira como ela se sentava, extremamente repulsiva para o seu gosto. Com que freqüência essa e outras coisas parecidas tiveram de se repetir, quão pouco você alcançou na prática efetiva! Acredito que isso se devia ao fato de que o dispêndio de ira e malevolência não parecia estar numa proporção certa com a coisa propriamente dita; não havia o sentimento de que a ira tivesse sido provocada por aquela ninharia de sentar longe da mesa, mas que ela existia de antemão em toda a sua magnitude e que só casualmente fora tomada como pretexto para se desencadear. Uma vez que se estava convencido de que o pretexto seria encontrado de qualquer modo, não havia nenhuma preocupação especial com a conduta; além do que ficava-se insensibilizado com as constantes ameaças, pois aos poucos já se estava quase seguro de que ninguém iria apanhar. A criança se tornava rabugenta, desatenta, desobediente, sempre pensando numa fuga, a maioria das vezes numa fuga interior. Assim você sofria, assim sofríamos nós. Do seu ponto de vista você tinha toda razão quando, com os dentes cerrados e o riso gorgolejante, que haviam transmitido ao filho, pela primeira vez, as imagens do inferno, costumava dizer (como ainda recentemente a respeito de uma carta de Constantinopla): "Isto sim é que é companhia!".
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É fato também que você nunca me bateu de verdade. Mas os gritos, o enrubescimento do seu rosto, o gesto de tirar a cinta e deixá-la pronta no espaldar da cadeira para mim eram quase piores. É como quando alguém deve ser enforcado. Se ele é realmente enforcado, então morre e acaba tudo. Mas se precisa presenciar todos os preparativos para o enforcamento e só fica sabendo do seu indulto quando o laço pende diante do seu rosto, então ele pode ter de sofrer a vida toda com isso. Além do mais, das muitas vezes em que, na sua opinião declarada, eu teria merecido uma surra, mas escapara por um triz por causa da sua clemência, se acumulava de novo um grande sentimento de culpa. De todos os lados eu desembocava na sua culpa.
Franz Kafka, aos 36 anos (1919) in "Carta ao Pai", páginas 25/26 e 30, tradução de Modesto Carone, Editora Brasiliense, 5ª reimpressão, 1995.
Sobre o livro do Kafka e as coincidências leia "De Castello a Castelo, de Kafka a Kafka - mera coincidência?
Um comentário:
Adorei as quatro partes,obrigada.
Margarida
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