sábado, 12 de abril de 2008

Arrufos Metropolitanos IV


(Se você não leu, leia o primeiro capítulo aqui; O segundo capítulo pode ser lido aqui e o terceiro aqui)



Agora, deleite-se com o quarto capítulo:

6:23

O fiscal do Metrô presta atenção no homem que sai do último vagão do trem que acaba de chegar do Jabaquara. Ele não sabe, objetivamente falando, o que lhe chamou a atenção no rapaz. Provavelmente um alerta do seu "feeling", desenvolvido nos muitos anos em que observa os passageiros.

Talvez seja porque, naquela hora, as pessoas costumam pegar o Metrô no sentido contrário. Os poucos que descem ali no final da linha estão apressados, irão tomar outras conduções, quem sabe para Guarulhos, têm horários a cumprir. Aquele não: desceu como se não tivesse para onde ir, sem pressa, sem compromisso. Sonado? Drogado? Tanto faz: ficará de olho nele, através das suas mil câmeras, até ele sair da sua estação.

O rapaz sobe as escadas, mas não se dirige à saída. Examina o local. Planta-se bem no acesso à plataforma dos trens para o Jabaquara. O operador do Metrô fica alerta com esse comportamento inusual. Aciona o zoom para tentar prever a intenção do cidadão. "Este lugar está bom. Ela não passará sem que eu a veja", pensa Pedro Paulo. Sabe que tem que ficar alerta, o movimento é grande. Entretanto, o objeto da sua busca é restrito: mulher bonita, estatura mediana, de saia e paletó cinzas, camisa branca, sapatos e bolsa pretos, cabelos esticados e presos por um laçarote de veludo vinho. Como da primeira vez.

Os dois se esbarraram na ida ao trabalho. Ele entrou na estação da Sé, vindo da Zona Leste. Ela já estava no vagão, vindo do Tucuruvi. A multidão o empurrou para perto dela, ou melhor, para cima dela. Não evitou. Já ficara espremido com muitos tipos desagradáveis, tivera sorte naquele dia.

Cabelos presos, nuca exposta. Metrô lotado, seu rosto colado na nuca dela, respira sentindo o seu perfume. O pequeno brinco de pérola atrai sua atenção. Deseja mordiscar seu delicado lóbulo e engolir a jóia. Contém-se. Ela pode fazer escândalo e ele morreria de vergonha. O trem dá uma freada brusca e ela pisa no pé dele. "Desculpe", diz ela. "Não foi nada", responde. Entabula conversa, esquece de descer na sua estação, mas consegue seu telefone.

E passado mais de ano, está ali, à sua espera. Cansado. A noite foi brutal. Nem sabe se dormiu realmente. A mente num turbilhão de emoções. Descontrole. Pensamentos mil aflorando, mil outros se desvanecendo. Tonturas, suores frios. Risadas desconexas. Desespero. Alucinações.

O sumiço repentino tinha lhe deixado preocupado e confuso. Onde ela estaria? O que acontecera? Será que realmente a tinha visto na estação? Ou foi mera miragem? Ela teria dito que iria comprar bilhetes? Ou se despedido? Seria tudo fruto da sua imaginação? Imaginara sua presença, a saia florida, a grande mala preta. Seria tudo apenas delírios? Certa apenas a ligação dela registrada na memória do seu celular. Mas ela teria realmente pedido para ele ir buscá-la? Ou entendera mal sua fala? Ou entendeu tudo errado, a mente turvada pelo desejo de lhe entregar o anel? Quem sabe? Como saberia agora?

Na noite passada, sozinho na estação, percebera que ela era uma estranha para ele. O que sabia sobre ela poderia ser resumido em poucas palavras: Adriana Pimenta; levemente católica, com pitadas budistas, espíritas, Chico Xavier e Paulo Coelho; palmeirense; família de Avaré, tem pai, mãe, irmãos, tios, avós, primos; mora no Tucuruvi, trabalha em escritório na Saúde; solteira, sem filhos; gosta de cinema de ação, suspense, terror – para ela cinema é diversão e só; não gosta de filmes românticos, diz que a vida real é diferente; dieta permanente, mas louca por feijoada; cor de cabelo indefinida, depende da estação do ano ou da lua; adora roupas e sapatos novos (mas que mulher não gosta?); e só.

E não sabia seu nome completo, seu endereço residencial nem do emprego, o telefone de casa nem do trabalho, e-mail, orkut, msm, nada. O nome dos pais, dos irmãos, dos amigos, dos colegas de trabalho, nadinha. "Será que ela planejara seu sumiço nesse tempo todo que passaram juntos?", indaga aos seus botões no meio do corredor de acesso da estação Tucuruvi. Pensa nela, mas olha atento as mulheres que passam. Atento também está operador das câmeras da estação. A qualquer movimento estranho ou perturbação acionará os seguranças.

E Pedro Paulo conclui agora, ali de pé no corredor, exausto, cabeça a mil, que até essas parcas informações poderiam ser falsas. Ela se chama mesmo Adriana? Seria solteira mesmo? Sem filhos? Teria realmente pai, mãe, irmãos? Morariam no Tucuruvi? Ela realmente trabalharia numa empresa na Saúde? A família seria de Avaré? Ou ela teria marcado no Metrô para ele não ver de que cidade estaria vindo?

Essas questões o deixam tonto, aliadas à falta de alimentação desde a noite passada. O Metroviário percebe que algo está errado com ele. Para não alarmá-lo, envia um faxineiro para limpar o corredor e ficar de olho nele.

Pedro Paulo percebe que, planejado ou não, o único contato entre eles era pelo celular que lhe dera aproveitando uma promoção do dia dos namorados, com ligação sem custo entre eles por vários meses.

Toma consciência que, na verdade, não fora ela que escondera propositalmente aquelas informações. Ele simplesmente não as pedira. Não o fez porque não tinha interesse em mais nada do que ela. O celular lhe satisfazia, falavam todos os dias. E ele queria saber dela, não de parentes e amigos. Egoisticamente, desejava ela só para ele. Quando estavam juntos não queria saber de outros.

Só poderia apontar como verídicas duas daquelas poucas informações que tem sobre ela: o Palmeiras e a feijoada. Quase todos os sábados se encontravam para comer feijoada. Poderiam escrever um guia das melhores e piores feijoadas da cidade. O ponto alto de cada uma. O que evitar, o que escolher. Qual a melhor batida de limão, a couve, o pagode. Disso ela tam bem gostava.

E o Palmeiras. Vira ela e outros milhares de bobos cantando "au, au, Edmundo animal" no Parque Antártica, tendo de esconder seu coração santista. Encontraram-se na estação do desencontro e foram à pé até o estádio. Ganhou dela um chaveirinho suíno para colocar as chaves do apartamento. E ela só entrava nele se ele exibisse o porquinho com as chaves.

O resto, agora apenas incertezas. E agora, sem celular, como encontrá-la? Lembrou que o uniforme dela tinha um símbolo estampado com o nome da empresa, no paletó e na camisa. Em vermelho ou vinho, discreto, combinando com o laçarote que prende seus cabelos. Já tinha lido o nome uma vez, mas agora não se lembra de jeito nenhum. Péssima hora para falhar a sua memória. Caso lembrasse, poderia procurar no catálogo telefônico. Também não lembra do símbolo, poderia procurá-lo nas ruas da Saúde.

Lembrou que, quando não está trabalhando, ela gosta de cabelos soltos e brincos grandes, geralmente aros dourados ou prateados. "Será que ela opta por eles para ele não engoli-los?" Resolveu ficar atento também com as mulheres de cabelos soltos, quem sabe alguma vez ela poderia ir trabalhar com os cabelos soltos, prendendo-os só no emprego.

10:12

E nada. A estação começa a ficar vazia outra vez. E ele firme no seu posto de observação. Andara um pouco no corredor para movimentar as pernas. A fome permanece. Procura nos bolsos alguma bala para mitigá-la. Acha um bombom "Serenata de Amor", que tinha planejado entregar para ela junto com o anel. Desembrulha-o com cuidado, coloca o doce na boca e lê a mensagem estampada no lado de dentro da embalagem: "As pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem."

Acaso? Realmente ela entrara na sua vida por acaso, uma freada brusca do trem do Metrô. E seu sumiço? Por acaso seria apenas um desencontro? Adiantaria ele ficar ali mais um pouco? Ou melhor seria tomar trens ao acaso até encontrá-la?

"Posso ajudá-lo", o segurança pergunta-lhe, arrancando-o de seus pensamentos. "Não, obrigado. Vou pegar o trem para o Jabaquara", diz ele de chofre, se dirigindo à plataforma de embarque. Iria deixar o acaso conduzi-lo até ela. Como vaticinou o bombom, não seria por acaso que ela ficaria com ele.

E Adriana Pimenta, se é que esse é o nome dela, o que estaria fazendo? Breve, aqui!

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