quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sobre filme, sutiâs e playboys




Atenção: esta é uma crônica masculina, ou seja, só poderia ser escrita por um homem

Outro dia estava zapeando pela tevê a cabo e encontrei o filme "O Dorminhoco", no qual o personagem do Woody Allen foi ao hospital para operar uma úlcera, a operação dá errado e ele é congelado em 1973, ano em que foi feito o filme, e reanimado duzentos anos depois. O filme explora o choque do personagem com as mudanças ocorridas durante o período em que estava hibernando. Lógico que esse futuro é hilário e crítico, pois sai da cabeça do Woody Allen, com alguma colaboração científica do Isaac Asimov. No futuro, os EUA estão dominados por um Líder, no melhor estilo 1984. A população é controlada e para a diversão existe uma máquina chamada orgasmotron e uma bola metálica que deixa as pessoas chapadas, o orb.

No trechinho que assisti, os cientistas explicam para ele várias coisas do futuro e o que aconteceu com diversos personagens históricos, e pedem para o "dorminhoco" identificar e explicar várias coisas do passado, tais como objetos, fotos, livros, etc. Ao ver uma das fotos, ele diz que são mulheres queimando sutiãs, ato que os cientistas do futuro não entendem.
Essa cena lembrou-me de uma recente conversa de bar, na qual relatei para minhas amigas que, quando era garoto, tinha duas certezas absolutas sobre o futuro: as mulheres não usariam sutiãs e não existiriam mais prostitutas, ambos por falta de demanda. Os primeiros deixariam de existir como conseqüência natural dos protestos das mulheres, que os retiravam e os queimavam em praça pública, como registrado na foto utilizada no filme. Eu, garoto novo, recém-entrado no ginasial (para quem não viveu a época, o ginasial corresponderia às atuais 5ª a 8ª séries do primeiro grau), não captava o sentido político daqueles protestos, entendia apenas que as mulheres eram obrigadas a usar sutiãs e se revoltavam contra essa obrigação. Eu, no meio da explosão de hormônios da idade, dava total apoio ao movimento feminino por seios livres, pois adorava vê-los passar leve e soltos, no suave balanço do caminhar da proprietária. Ou entrevê-los nas transparências, semi-transparências e decotes.
As segundas, no meu entendimento, também deixariam de existir em função da pregação dos movimentos pelo amor livre, a revolução sexual, a pílula, etc. Eu era muito novo na época, mas colegas mais velhos já desfrutavam das vantagens do amor livre, ou pelo menos encantavam os garotos narrando seus sucessos sexuais, reais ou imaginários. Mais alguns poucos anos, eu esperava, e seria minha vez de aderir ao movimento libertário. Aderir e praticar, lógico. Faça amor, não faça guerra. As moças da dura vida fácil teriam que procurar outras ocupações. Quem pagaria por algo que se tem de graça?
Além daquelas duas certezas absolutas, eu tinha uma dúvida cruel: com toda essa liberação sexual em andamento, as revistas com mulheres nuas terminariam? Fazia sentido a futura extinção delas, mas eu achava que seria uma grande perda para a humanidade. Mulheres despidas, de todos os tipos, ali à mão, a qualquer hora, em qualquer lugar. No segundo dia de aula do ginasial um colega apresentou-nos uma bolsa lotada de Playboys americanas. Folheávamos, maravilhados, o novo mundo relevado para nós. E na naquela idade só se pensava em sexo, sexo, sexo, muita teoria e nenhuma prática.
Se eu fosse congelado naquela época e reanimado agora teria uma imensa surpresa ao verificar que as minhas duas certezas absolutas estavam totalmente equivocadas. (Ano passado, um ilustre 4º árbitro disse na televisão: "tenho quase certeza absoluta, que a bola não entrou". O replay mostrou claramente que a bola tinha entrado. Será que ele foi reanimado para o jogo?)
Bastaria sair do laboratório de reanimação e andar pelas ruas para verificar que eu estava totalmente errado, como o 4º árbitro, pois quase todas, para não dizer todas, as mulheres usam sutiãs, a maioria exibindo as alças (hoje está muito quente aqui em São Paulo) e muitas a parte superior do bojo ou da taça. Da mesma forma, prestando um pouco mais de atenção, constataria que a prostituição não só não terminou como campeia solta por toda a cidade, nas ruas, nos bares, nas saunas, nos cafés, nos hotéis e apar-hotéis.
 
Onde foi que eu errei, perguntar-me-ia surpreso. O que teria havido com o movimento de libertação das mulheres? Um ditador estaria obrigando-as a usar sutiãs? A religião tinha proibido seios livres? E a revolução sexual, o amor livre, onde teriam parado? Precisar-se-ia, novamente, casar para transar? O sexo era proibido? Outro dogma religioso?
Ele ficaria ainda mais perplexo vendo as mulheres exibindo calcinhas para todo o lado, com as calças e saias de cinturas baixas, baixíssimas, muitas "pagando cofrinhos", novos, velhos, pequenos, grandes. Agora era obrigatório mostrar sutiãs e calcinhas?
Diante do mar de sutiãs e calcinhas, e do exército de prostitutas, o menino descongelado, perplexo, provavelmente correria para o laboratório de reanimação e perguntaria para os cientistas o que tinha acontecido com o amor livre e a liberação das mulheres. Eles apresentariam o computador pessoal, a internet e o Google para ele, e diriam que as respostas estavam lá, era só procurar.
Ele, encantado com a novidade, vindo do tempo do radinho de pilha, da régua de calcular e da enciclopédia Barsa, logo imergiria na rede atrás de respostas. Navegaria daqui, fuxicaria de lá, clicaria ali, entretanto, apesar de todo o esforço, não acharia o motivo pelo qual as mulheres pararam de queimar sutiãs e voltaram a usá-los com devoção. E também não encontraria o motivo pelo qual alguém pagaria por sexo, já que a revolução sexual tinha vencido os costumes conservadores. As "moças" estavam tão famosas que tinham sites e blogs!
Mas ele era um menino, os hormônios à flor da pele, não ficaria triste com a falta de respostas, pois teria verificado que suas queridas Playboys não continuam a existir, como se multiplicaram em milhares de outras revistas, além de se transformar em fotos e filmes, ali no notebook, a um toque do mouse. Ele concluiria que essa tal de internet era uma invenção maravilhosa! Pena que ele não poderia contar as novidades para os colegas que tinham ficado lá no passado com uma revista na mão .....

José FRID




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7 comentários:

Anônimo disse...

A questão do sutiã provavelmente tem a ver com a percepção que as mulheres aquelas mesmas que os queimaram em praça pública) tiveram do que seria um seio
sem o dito cujo.
Talvez elas tenham assistido algum documentário sobre tribos indígenas?
Por mais libertária que seja a mulher, não dá pra ser feliz com peitos daqueles.
Viva o sutiã!

E.

Metamorfose Ambulante disse...

Mas ainda prefiro ver sem!

FRID

Anônimo disse...

Muito legal a crônica. Inspiradíssima! Teve até o toque sutil e preciso de uma mesóclise.

Bom final de semana!



H.

Metamorfose Ambulante disse...

Será que pega mulher com uma boa mesóclise??

Anônimo disse...

que beleza!

R.

Anônimo disse...

Prezado Frid;

Muito legal! É muito bom ser amigo de um escritor de talento, você é super inteligente, sempre tem muitas coisa a ensinar na vida.
Abraços;
J.

Anônimo disse...

Olá Frid,

Vc sempre "dando show" com as crônicas que escreve e nos links que sugere. Quero que saiba que sou sua fã, caro amigo. Parabenizo-lhe pela inteligência e maestria na expressão da nossa, então, mal utilizada língua portuguesa.

Abraços,

L.